Você não controla os imprevistos. Mas controla como reage a eles
- Alessandra Aragão

- 16 de abr.
- 3 min de leitura

Como você reage a imprevistos?
A vida raramente segue o roteiro que imaginamos. Um atraso inesperado, uma mudança de planos, uma resposta atravessada, uma notícia fora da programação. Situações que, ao longo do dia, nos lembram de algo essencial: nem tudo está sob o nosso controle.
No Budismo, que surge por volta do século VI a.C. com Sidarta Gautama, a impermanência é compreendida como uma característica fundamental da existência. O termo anicca descreve justamente isso: tudo muda o tempo todo. Emoções passam, relações se transformam, fases começam e terminam. O sofrimento não está na mudança, mas na tentativa de manter estável aquilo que, por natureza, é transitório.
Séculos depois, o Estoicismo reforça essa compreensão por outro caminho. Epicteto ensinava que algumas coisas dependem de nós e outras não. Quando insistimos em controlar o comportamento do outro, o rumo dos acontecimentos ou a forma como seremos percebidos, entramos em um campo de desgaste. Quando direcionamos nossa energia para o que está ao nosso alcance, ampliamos nossa capacidade de resposta.
Essa distinção aparece de forma concreta no cotidiano. Você pode sair de casa decidido a ter um dia tranquilo e, no caminho, encontrar alguém impaciente, um colega ríspido ou um imprevisto que muda toda a agenda. O impulso inicial, muitas vezes, é reagir no mesmo tom. Mas aqui existe uma escolha: nem tudo o que o outro oferece precisa ser aceito por você.
Cada pessoa age a partir do que tem. Há quem responda com pressa, quem ataque, quem se defenda antes mesmo de ser questionado. Isso faz parte da convivência. Absorver isso é opcional. A raiva, a crítica ou a desorganização do outro não precisam se instalar em você.
No consultório, vivi recentemente um processo que ilustra bem esse ponto. Um paciente chegou com uma queixa recorrente: sentia-se constantemente provocado no trabalho e, diante de pessoas mais agressivas, reagia da mesma forma. Ao final do dia, o desgaste era inevitável.
Ao longo do processo, começou a perceber que a reação do outro não precisava determinar a dele. Que a raiva que vinha de fora não era algo que ele precisava assumir como sua. E que existia um espaço de escolha entre o que acontece e a forma como se responde.
Com o tempo, desenvolveu mais domínio emocional. As situações continuaram acontecendo, mas a forma como ele se posicionava mudou. Hoje, relata que já não compra mais as brigas para as quais é convidado. Consegue ouvir sem absorver, se posicionar sem atacar e seguir leve, sem carregar o que não é seu.
Esse movimento, que começou no trabalho, se estendeu para a vida pessoal. As relações se tornaram mais leves. E as pessoas ao redor começaram a perceber. Comentam que ele está mais calmo, mais centrado. Perguntam o que aconteceu.
A resposta não está no que aconteceu fora. Está no que ele deixou de levar para dentro.
E talvez seja esse o ponto.
A vida continua trazendo desafios, pessoas difíceis e situações inesperadas. Mas, quando você entende que nem tudo precisa ser absorvido, a forma de passar por essas experiências muda.
Essa compreensão também ajuda a olhar para a ansiedade com mais clareza. Estudos da psicologia cognitiva mostram que ela está frequentemente associada à antecipação de cenários negativos, muitos deles improváveis. A mente tenta prever o que pode dar errado como forma de proteção, mas, ao fazer isso de forma repetida, amplia o desconforto. É como viver várias vezes uma situação que ainda nem aconteceu.
Trazer a atenção para o presente não elimina os imprevistos, mas reduz o espaço que eles ocupam antes mesmo de existirem. Se o futuro é construído a partir das escolhas do agora, é neste momento que existe possibilidade real de ação.
Quando você reconhece que fez o melhor possível dentro de cada situação, com os recursos que tinha naquele momento, algo se reorganiza internamente. A culpa perde força, o medo diminui e o “e se” deixa de ocupar tanto espaço.
O futuro continua incerto. As pessoas continuam sendo quem são. Os imprevistos continuam acontecendo.
Mas você não precisa reagir da mesma forma. Pode escolher sua resposta, mesmo quando não escolhe o que acontece.
Essa é, para mim, a nossa maior liberdade.
Texto publicado originalmente em 16 de abril de 2026, na coluna Reinvente-se, que assino semanalmente às quintas-feiras no caderno Bem Viver do jornal Estado de Minas.
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