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O lugar dos amigos na vida adulta

Foto do escritor: Alessandra Aragão
Alessandra Aragão
1 de out.
4 min de leitura

Quando pensamos nas relações da nossa vida, é comum que os amigos ocupem um lugar de destaque. São pessoas com quem dividimos histórias, mudanças, dificuldades, alegrias e diferentes fases. Mas existe uma diferença entre considerar uma amizade importante e reservar espaço para que ela continue presente.


O psicólogo Jeffrey Hall, da Universidade do Kansas, pesquisou a relação entre tempo compartilhado e formação de uma amizade. Seus estudos apontaram de 40 a 60 horas para que um conhecido possa se tornar um amigo casual, de 80 a 100 horas para que a relação avance para amizade e mais de 200 horas para uma amizade próxima.


Os números não estabelecem uma fórmula, mas mostram algo que conhecemos pela própria experiência: amizade precisa de tempo e convivência.


Na infância, na adolescência e no início da vida adulta, parte desse tempo nos é oferecida pela organização da vida. Escola, faculdade, vizinhança, festas, esportes e início da carreira nos colocam repetidamente diante das mesmas pessoas. Existe uma espécie de oferta automática de convivência. O café no mesmo horário, o almoço, a conversa depois da aula ou o encontro no corredor fazem com que algumas pessoas deixem de ser apenas rostos conhecidos.


A repetição dos encontros não cria uma amizade, mas aumenta as oportunidades de aproximação. É preciso algum movimento entre as pessoas: conversar, descobrir afinidades, demonstrar interesse, compartilhar experiências e estabelecer confiança e reciprocidade. A convivência cria a oportunidade; o que acontece dentro dela pode transformar um conhecido em amigo.


Na vida adulta, parte dessa oferta diminui. Terminamos a faculdade, mudamos de emprego, de bairro ou de cidade, constituímos família e assumimos outras responsabilidades. O trabalho também mudou. Nos modelos híbridos e remotos, alguns daqueles “espaços de esbarrão” deixam de existir. A reunião virtual tem horário e finalidade. Resolve a demanda, devolve horas de trânsito ao trabalhador, mas oferece menos oportunidades para que uma conversa sem objetivo específico se prolongue e nos permita conhecer o outro para além da função que ocupa.


Ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas possibilidades de conexão. Podemos saber para onde alguém viajou, o que comeu, o livro que está lendo ou como comemorou o aniversário sem termos conversado com essa pessoa uma única vez. Acompanhamos sua vida, mas acompanhar não é necessariamente conviver.


Aquilo que antes encontrava espaço naturalmente na rotina passa a exigir intenção, disponibilidade e escolha.


Trabalho, filhos, relacionamentos amorosos, cuidados com os pais, animais de estimação, tarefas domésticas, deslocamentos, cansaço e a própria necessidade de ficar sozinho disputam essa escolha.


Quase todas essas demandas apresentam alguma urgência. O trabalho tem prazo. O filho precisa de atenção. Os pais podem precisar de cuidados. O animal precisa ser alimentado ou passear.


O amigo pode esperar. E justamente porque pode esperar, muitas vezes continua esperando.


Os dados americanos ajudam a dimensionar essa mudança. Em 1990, 3% dos adultos diziam não ter nenhum amigo próximo; em 2021, eram 12%. No mesmo período, a parcela daqueles que declaravam ter dez ou mais amigos próximos caiu de 33% para 13%. São dados dos Estados Unidos e não podem ser transportados diretamente para a realidade brasileira, mas apontam uma mudança nas relações de amizade que merece atenção.


Com menos oportunidades espontâneas de convivência, onde fazemos novos amigos na vida adulta?


Na década de 1980, o sociólogo Ray Oldenburg desenvolveu o conceito de “terceiros lugares”: espaços que não são nem a nossa casa, o primeiro lugar, nem o trabalho, o segundo. Cafés, parques, bibliotecas, clubes, centros religiosos e outros ambientes podem funcionar como lugares de convivência informal. Não basta frequentá-los uma vez. É a repetição que permite reconhecer pessoas, iniciar conversas e criar possibilidades de aproximação.


Hoje podemos trabalhar, comprar, pedir comida, assistir a filmes, conversar e resolver grande parte das nossas necessidades sem sair de casa. A praticidade trouxe ganhos, mas também pode reduzir oportunidades de encontro antes incorporadas ao cotidiano.


Não existe uma fórmula para fazer amigos. Mas hoje já existem iniciativas dedicadas a compreender como esses vínculos se constroem. Stanford ofereceu uma disciplina voltada ao desenvolvimento de amizades saudáveis e atualmente mantém um curso sobre a ciência e a prática da construção da amizade. Entre os aspectos trabalhados estão reciprocidade, vulnerabilidade, conversas que favorecem aproximação e formas de construir relações mais profundas.


A relevância desses vínculos vai além da convivência social. O Estudo do Desenvolvimento Adulto de Harvard, iniciado em 1938 e ainda em andamento, acompanha há décadas a relação entre diferentes aspectos da vida, saúde e bem-estar. Entre seus achados mais consistentes está a importância da qualidade das relações próximas para uma vida mais saudável e satisfatória.


Fazer amigos na vida adulta pode exigir colocar-se novamente em circulação: frequentar lugares, participar de atividades coletivas, voltar aos mesmos espaços, iniciar conversas, aceitar convites e também convidar. Um encontro pode iniciar uma aproximação, mas construir uma amizade exige tempo, continuidade dos encontros e interesse de ambas as partes.


O mesmo vale para as amizades que construímos ao longo da vida. Podemos considerar alguém importante por muitos anos. Porém, amizade não se sustenta apenas pela importância que atribuímos a ela. Precisa de tempo, convivência e espaço na vida que efetivamente levamos.


Texto publicado originalmente em 01 de outubro de 2026, na coluna Reinvente-se, que assino semanalmente às quintas-feiras no caderno Bem Viver do jornal Estado de Minas

 


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