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O ciclo do agora começa quando você solta

  • Foto do escritor: Alessandra Aragão
    Alessandra Aragão
  • 9 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 13 de abr.

Reflexão sobre ciclos da vida, amadurecimento e a importância de aprender a deixar ir para viver novos recomeços
Reflexão sobre ciclos da vida, amadurecimento e a importância de aprender a deixar ir para viver novos recomeços

No último domingo, fomos convidados a refletir sobre o significado da Páscoa. Para além das tradições, ela nos lembra da passagem. Do hebraico Pessach, representa travessia, morte e renascimento.


O ser humano é um ser de passagem.


Estamos em constante movimento. Mudamos de lugar, ambiente, fase, relações e estados internos. Essa é a nossa natureza. Ao longo da vida, deixamos para trás histórias, vínculos e versões de nós mesmos, enquanto abrimos espaço para o novo. Muitas vezes, o maior desafio não está na mudança, mas na resistência em permitir que ela aconteça.


Diante dessa reflexão, lembro-me de Carlos Castaneda, que nos convida a ter a morte como conselheira. Quando olhamos para a finitude dessa forma, nossas escolhas ganham mais verdade. Vivemos com mais consciência e mais presença. Essa percepção reorganiza o olhar e amplia o valor do que antes parecia simples. A companhia de quem amamos, o descanso ao final do dia, um novo aprendizado, os pequenos gestos que, na pressa, passam despercebidos.


Vivemos em uma sociedade que valoriza o acúmulo e sustenta a ideia de que tempo é dinheiro. No entanto, diante da brevidade da vida, o que permanece é o que foi vivido, sentido e experimentado, e não os bens acumulados. Aceitar a finitude também é aprender a lidar com as perdas, sejam elas de pessoas, de sonhos ou de formas antigas de quem fomos. Como aponta Freud, o luto faz parte do processo. É ao elaborar a perda que nos tornamos disponíveis para o novo.


Ao longo da vida, habitamos diferentes ciclos. Infância, juventude, carreira, relações. Em cada etapa, algo em nós se encerra para que outra forma de vida possa surgir. Crescemos a partir dessas despedidas, que ampliam nossa consciência e fortalecem nossa identidade.


Para mim, essa compreensão não é apenas teórica. A perda precoce da minha mãe transformou profundamente o meu olhar. A dor deu um novo sentido ao meu caminho e me ensinou a valorizar o que foi vivido, ao mesmo tempo em que me convida a honrar cada instante. Como ensina Bert Hellinger, honrar aqueles que vieram antes de nós é parte essencial de viver bem. É dessa fonte que recebemos a vida, a força e os recursos para seguir.


Hoje, às vésperas de celebrar meu aniversário, reconheço esse marco como expressão desse movimento contínuo da vida.


O aniversário deixa de ser apenas uma contagem de tempo e se torna um convite à consciência. Um convite para reconhecer o que já não faz mais sentido sustentar e abrir espaço para aquilo que pede renovação.


É o momento de deixar ir o que pesa e permanecer com o que sustenta. Sair do automático e escolher com mais presença.


Não cheguei até aqui sendo a mesma pessoa.


A vida foi retirando excessos.

Expectativas.

Padrões.

Ilusões.


Nesse processo, fui me aproximando de quem sou.


Nem sempre foi simples sustentar escolhas.

Nem sempre foi confortável enxergar o que precisava ser visto.

Mas foi necessário.


Hoje existe mais clareza.

Sei o que faz sentido.

Reconheço o que não faz mais.


Respeito meu ritmo.

Escuto minha intuição.

Escolho com mais verdade.


Não sou a mesma de antes.

Ainda bem.


Sigo mais leve.

Mais consciente.

Mais inteira.


Se há algo que esse caminho me ensinou é que crescer não é chegar.


É continuar no compromisso de se tornar, todos os dias, quem se é.



Texto publicado originalmente em 09 de abril de 2026, na coluna Reinvente-se, que assino semanalmente às quintas-feiras no caderno Bem Viver do jornal Estado de Minas.

 
 
 

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